segunda-feira, 6 de abril de 2009

o meu farol

vieira de leiria, 06-04-2009 - 01:10

durante meses sonhei com o momento em que, finalmente, poderia navegar pelo mar fora, sentido as suas ondas contra o meu novo casco pintado de vermelho e protegido por uma nova marca de verniz.
ao fim de tanto tempo parado no estaleiro, este era o primeiro dia da minha nova vida...

em tempos naveguei dias a fio pelo mar calmo que, por vezes, se tornava tempestuoso e sempre voltava ao cais são e salvo.
certo dia deparei-me com uma enorme tempestade, a maior que algum dia me surgira.
enfrentei-a com todas as forças que tinha mas, após tantas tempestades enfrentadas, a minha estrutura estava enfraquecida e não aguentei. fui despedaçado pelas fortes ondas que a tempestade trouxe consigo. lutei com bravura mas no final perdi partes do meu casco e quase naufraguei.
consegui chegar à costa com muitos ferimentos e não julgavam que conseguiria voltar a navegar.
durante meses estive em terra firme ora a ser reparado ora à espera de material para usarem em mim. foi uma fase menos boa da minha vida mas sabia que um dia voltaria a navegar e sentir aquele cheiro a sal, ver as gaivotas a tentar chegar ao peixe dos barcos de pesca. simplesmente a viver.
até que finalmente esse dia chegou e estava radiante e nervoso por voltar a ser quem era.
vieram algumas pessoas ver como eu tinha ficado lindo com a minha cor vermelha e brilhante ao sol devido ao verniz. este verniz tinha um cheiro diferente do anterior mas o que importava era que me tinha de habituar a ele pois sabia que me ia proteger a cor.
estava tão contente que nem me apercebi que tinha chegado a hora de voltar à agua. finalmente!
desci lentamente por um caminho feito com rolos de madeira até que... entrei imperial na água salgada que banhava o estaleiro. que sensação tão boa. sei com toda a certeza que se tivesse olhos eles verteriam lágrimas de contentamento.
como sabia bem a água a bater contra o meu casco novamente, que sensação imensurável de liberdade.
fui logo para o mar, rasgando as suas ondas por onde passava. que saudades tinha destes momentos que tão bem conhecia. voltei a ver as bandos de gaivotas, cardumes de peixes que tentavam fugir das redes de pesca, a ver o brilho do sol na água salgada. estava novamente vivo.
passaram horas sem que eu desse por elas passarem até que ficou tudo escuro pela noite à minha volta. apercebi-me que estava sozinho. um ponto de luz no meio do mar. liguei o meu radar e tentei procurar o rumo para o cais.
de repente surgiram algumas ondas mais altas e o vento soprava com mais força até que a tempestade chegou até mim com tanta força que quase me virava por algumas vezes.
lutei uma vez mais com todas as forças que tinha mas a tempestade era muito forte. comecei a sentir as forças a fraquejar e a abandonarem-me até que, vi ao longe o que me parecia ser o piscar de uma luz. instantes depois voltei a ver a mesma luz que piscava. só podia ser um farol, tinha de ser um farol.
tinha de chegar até ele mas para isso tinha que lutar, tinha de conseguir as forças que me estavam a faltar. e foi o que fiz, voltei a lutar contra a tempestade e naveguei em direcção à luz que vinha do farol.
finalmente consegui chegar ao cais são e salvo graças à luz do farol. fiquei radiante por estar novamente seguro e principalmente por ter sido com a ajuda daquele que viria a ser o meu farol.

tal como os barcos enfrentam as tempestades e são ajudados pelos faróis a encontrar o caminho até ao cais e portos de abrigo assim são as pessoas. passamos por muitas tempestades nas nossas vidas e, muitas das vezes, quando estamos prestes a desistir surge alguém que nos ajuda, que nos guia a seguir por um caminho diferente.
há casos ainda das pessoas que nos ajudam, não saberem que o estão a fazer e que se tornam importantes para nós.
na minha vida existe um farol desses que, não sabendo, me está a ajudar a seguir por um novo caminho.
o meu farol...

1 comentário:

Nataxxa disse...

Para não te queixares que não comento o post...

Gostei da analogia do barco e espero que esse farol que encontraste não funda a lâmpada e que esteja num porto seguro. ;)