meses depois volto ao lugar onde me refugio do
mundo. paro o carro no mesmo local que há anos considero um pouco como meu. na rua
o vento sopra com força e o carro estremece de vez em quando. apesar de ter
alguns carros a passar na estrada, consigo abster-me e apenas ouvir o vento e o
rebentar das ondas antes de chegarem à areia da praia.
fecho os olhos e deixo-me levar pelo pensamento...
é dia e passeio pela borda do mar com as calças
dobradas pouco abaixo dos joelhos. as ondas, quase imperceptíveis, deslizam
pela areia molhada de encontro aos meus pés.
o céu azul e o brilho do sol compõem um quadro
quase perfeito.
de mãos nos bolsos vou caminhando lentamente para
sul até que, ao longe, surge alguém familiar que me faz disparar o ritmo
cardíaco...
paro e tento controlar a pulsação… penso num
suculento pedaço de leitão assado e o quanto o saboreio calmamente… em poucos
segundos, a situação volta ao normal…
volto a olhar para sul e descarto a hipótese de se tratar
de uma miragem…
tu...
acelero o andamento até dar por mim a correr na tua
direcção até que… pelo canto do olho
esquerdo me apercebo que estou a ser perseguido…
olho para o lado e vejo que é apenas uma gaivota
que vai a passar quase junto à areia… volto a cabeça para a frente e, quando me
apercebo, é tarde de mais… um cão que andava a brincar na praia atravessa à
minha frente fazendo com que me desequilibre e caia de frente na areia molhada…
por breves instantes o mundo parece parar mas retoma logo de seguida quando
começo a cuspir a areia que ia comendo…
levanto-me e desvio o caminho para perto das
esplanadas para lavar a boca com água que não seja salgada e volto logo de
seguida à borda do mar para retomar a minha corrida desenfreada para junto da
pessoa que vi…
paro a um metro de ti e abaixo-me para pôr as mãos
entre as coxas e os joelhos a tentar recuperar o fôlego…
alguns segundos depois endireito-me.
olhamo-nos nos olhos.
o teu olhar brilhante e doce que me acompanha há
alguns meses... todos os dias... todas as noites antes de adormecer... todas as
manhãs quando acordo...
sorrimo-nos...
o teu sorriso doce e verdadeiro que vejo quando, na
infinidade de vezes que por dia, em ti penso.
aproximas-te...
abraçamo-nos...
o teu abraço sabe tão bem que dá vontade de ficar
assim para sempre abraçado a ti...
os nossos rostos afastam-se e voltamo-nos a olhar
mas, desta vez, mais profundamente.
aproximamo-nos...
lentamente, sinto o calor da tua respiração envolver-se
com a minha numa só. os nossos lábios tocam-se suavemente até que...
abro os olhos e regresso ao interior do carro... na
rua está frio e o mar continua com as suas ondas a rebentar antes de chegar à
areia.
saio do carro e vou até perto das escadas que
servem o acesso ao areal… com as mãos no blusão, deixo-me ficar parado a olhar
para o mar…
o vento despenteia-me e a chuva fina envolve-me o
rosto misturando-se com as lágrimas que lentamente vão aparecendo…
até quando esta dor?
relaxo os ombros e preparo-me para o final do meu sonho...

1 comentário:
Este post não teria sido o mesmo sem todas as dificuldades para o colocar e aquele leitão...
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